Cannabis e Cirurgia. Cuidados no Perioperatório

O Cenário Inovador da Medicina Canabinoide na Cirurgia
O uso de fitocanabinoides na prática médica expandiu-se exponencialmente nos últimos anos, alcançando especialidades cirúrgicas e o ambiente de cuidados perioperatórios. Historicamente, a literatura científica e as anamneses médicas abordavam o consumo de cannabis estritamente sob a ótica recreativa ou de abuso de substâncias, focando em riscos cardiorrespiratórios e interações imprevisíveis com agentes anestésicos. No entanto, com a consolidação da cannabis medicinal e a prescrição regulamentada, surge uma nova demanda clínica: como manejar pacientes em tratamento crônico com fitocanabinoides que serão submetidos a procedimentos cirúrgicos eletivos ou de urgência.
Este tema inovador — abordado pioneiramente por especialistas como o Dr. Mauro Araújo no Wecann Summit 2026 — exige que equipes cirúrgicas, anestesiologistas e médicos assistentes dominem protocolos claros de avaliação clínica.Afinal, a interrupção abrupta da terapia canabinoide no pré-operatório pode descompensar quadros crônicos de dor ou ansiedade, enquanto a manutenção sem critérios pode gerar interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas complexas com sedativos, opioides e bloqueadores neuromusculares.

Foto: Larissa Carvalho
O Que Perguntar na Anamnese Pré-Operatória
A avaliação pré-operatória de um paciente em uso de cannabis medicinal requer uma investigação detalhada, livre de preconceitos, focada na segurança clínica. O médico deve questionar ativamente:
- Qual é a formulação exata utilizada? (Extratos ricos em CBD, isolados, proporções equilibradas de THC:CBD ou formas inaladas/sublinguais).
- Qual é a posologia e a frequência diária? O histórico de uso regular estabelece o nível de tolerância do paciente.
- Qual foi o horário da última administração? Conhecer a meia-vida dos canabinoides no organismo é vital para antecipar interações com a anestesia.
- Qual é a indicação clínica principal? (Controle de dor neuropática, espasticidade, distúrbios do sono ou ansiedade refratária).
Quando Suspender e Como Ajustar no Intra e Pós-Operatório
Uma das maiores preocupações no perioperatório envolve a interação dos canabinoides com o sistema hepático do citocromo P450 (CYP450), responsável pelo metabolismo de diversos fármacos anestésicos. O canabidiol e o tetrahidrocanabinol são metabolizados por essas enzimas e podem atuar como inibidores ou indutores, alterando as concentrações plasmáticas de agentes anestésicos, relaxantes musculares e opioides administrados no intraoperatório.
De acordo com diretrizes recentes e a prática integrativa, a suspensão total da cannabis medicinal nem sempre é necessária ou recomendada. Em muitos casos, sugere-se a manutenção de doses estáveis ou a suspensão temporária de formulações ricas em THC de 12 a 24 horas antes da cirurgia para evitar episódios de hipotensão intraoperatória ou interações sinérgicas indesejadas com depressores do sistema nervoso central.
No pós-operatório, o manejo foca no controle multimodal da dor e na prevenção de náuseas e vômitos pós-operatórios (NVPO). Os canabinoides possuem propriedades antieméticas consolidadas (mediadas por receptores 5-HT3 e CB1 no tronco cerebral), o que pode auxiliar na recuperação cirúrgica, desde que reintegrados de forma gradual e sob rigorosa supervisão médica.
Referências Bibliográficas:
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- Lau, C. S., et al. (2021). Cannabis in perioperative medicine: A systematic review. Anesthesia & Analgesia,132(4), 989–1001.
- Perez, J., et al. (2019). Perioperative implications of cannabis use: A review of the literature. Journal of Clinical Anesthesia, 57, 88–95.
- Häuser, W., et al. (2018). Cannabinoids in the therapy of chronic pain: By the numbers. Schmerz (Berlin,Germany), 32(3), 195–204.



